quarta-feira, 6 de abril de 2011

Elucubrações sobre o ponto de cruz a partir da ilustração de abril

Que título enorme! Mas, vejam só: reparem numa das jovens que colhe flores, a que está bem no centro da iluminura. Ela não faz parte da cena principal, que é a da troca de alianças do jovem casal:
No entanto, ela chamou a atenção de algum anônimo artista, que a reproduziu numa revista muito antiga de modelos de ponto de cruz. Essa revista caiu nas minhas mãos, há tanto, tanto tempo, que nem me lembro do ano, nem tenho mais essa revista (devo ter doado, ou se perdeu  em alguma das minhas mudanças - lembrei-me agora desta postagem: Livros que perdemos pelo caminho). 
Acontece que fiquei tão fascinada pelo desenho, que eu o bordei. Ainda não conhecia o Duque de Berry, nem seu livro de orações.Durante muitos anos me dediquei ao ponto de cruz, seja nos barradinhos, seja em quadrinhos e também em quadrões.
Acho que podemos colocar uns quinze anos nesse "tanto, tanto tempo", porque quando voltei ao Rio, depois da aposentadoria e dos quase trinta anos de Brasília, eu trouxe esse bordado, devidamente emoldurado, na minha bagagem. Olha ele aqui:

Foi feito por mim!!!! (46 cm x 63 cm)
Detalhe da jovem, desta vez com as flores nas mãos:

Não me lembro de nenhuma referência ao livro do Duque. O que me admira é que a pessoa que desenhou o esquema para a tal revista respeitou o estilo da época (o livro é do séc. XV), e acrescentou elementos característicos do estilo mille fleurs ou millefleurs (só encontrei informações em francês e em inglês), em voga no Renascimento (sécs. XIII- XVII).

O ponto de cruz  (recuso-me a dizer ponto cruz; quem inventou isso?) é um dos pontos mais antigos de que se tem conhecimento. Alguns estudiosos dizem que ele nasceu quando os homens das cavernas precisavam costurar os pedaços de couro para suas vestimentas. Vou começar de tempos mais próximos. Os fragmentos mais antigos datam do ano de 850 da nossa era e foram encontrados na Ásia Central. Mas é na Idade Média que realmente começa a sua verdadeira história. Entre os sécs. X e XIII, as castelãs, enquanto esperavam seus maridos voltarem da guerra (tantas, tantas, cruzadas, etc.), copiavam os motivos das tapeçarias que eles traziam do Oriente. No Renascimento, o ponto de cruz se espalhou por toda a Europa e se tornou uma das bases da educação feminina. A Igreja encomendava bordados para seus ornamentos, toalhas, vestes para cerimônias religiosas,etc.etc. Foi no séc. XVI que começaram a circular os primeiros esquemas impressos (Guttenberg inventou a imprensa em 1439), principalmente na Alemanha e na Itália. Em 1586, na França, publica-se La clef des champs, de Jacques Le Moyne, um livreto com motivos de flores e de animais estilizados inspirados no Oriente e em símbolos heráldicos. No séc. XVII, chegam à Europa, vindos da América novos colorantes naturais, de baixo preço, que permitem tingir os fios de vermelho (olha o redwork aí, gente!). As mulheres começam a aprender a ler e a escrever (embora até pelo menos o séc. XIX muita gente não soubesse ler nem escrever), e entra a moda das amostras ( samplers) ou marcadores, nos quais as mulheres bordam vários tipos de alfabeto. Já escrevi num comentário que tenho um quadro desses, bordado pela minha mãe, datado de 1915 (ela estava com 9 anos). Já tentei fazer uma foto, mas sem resultado, por causa do reflexo do vidro. Borda-se em ponto de cruz até o séc. XIX, quando ele desaparece praticamente dos salões, porque as senhoras passam a preferir o bordado livre, e o ponto de cruz é ensinado somente nas escolas, até quase desaparecer também. Foi nos anos 80 que ele retornou ao universo do bordado feminino, com força total. Retirei essas informações de um blog francês (Point-de-croix et broderie), que, por sua vez, se inspirou na Extrait de L'Encyclopédie du point de croix, Prima Donna Éditions.
Uma pequena reflexão: há bordadeiras que têm uma certa aversão ao ponto de cruz, talvez porque pensem que ele só serve para as barrinhas de toalhas de mesa, ou de banho, ou de panos de prato. No entanto, podem-se fazer maravilhas com o ponto de cruz. E olha que não é um ponto tão fácil de fazer, não (precisa-se  tomar muito cuidado com o avesso - um avesso mal feito acaba com o trabalho). Vejam quanta história nos conta o artesanato. Fiquei muito triste quando uma antiga colega de Faculdade me disse: "Acho isso uma perda de tempo", a cara-de-pau, olhando um dos meus trabalhos. Só eu!!!!
(por Cecilia)

14 comentários:

Livia disse...

Foi uma coincidência mesmo??? Que incrível!!! Me deu vontade de aprender ponto cruz, rsrs... vai para o fim da fila.
bjos

Anônimo disse...

Adorei seu comentário sobre a mudança do nome para ponto cruz. Também não sei quem inventou isso, coisa mais sem graça.rsrsrs
Berê

Ana disse...

Cecília!!!!
Lembra do mostruário de ponto cruz que eu fiz para um concurso de prendas? Vc colocou um comentário sobre o bordado da sua mãe. Também adoro ponto cruz. Amei seu post! Na época do concurso tive que pesquisar também, porque é feito uma prova oral sobre o artesanato escolhido. Achei pouca coisa, esse post de hoje estaria perfeito para uma prenda. Agora essa amiga hein? É pura inveja
Bjus querida, vc num concurso de prendas iria arrasar

Iris Barbas disse...

Oi Cecilia!

Que belo trabalho! Deve ter levado muitas e muitas horas...

Abraços, Iris

Simone Arrais disse...

Um post magnífico, Cecilia. Amei! Adoro saber as origens do que fazemos. Passei um tempo "intrigada" (no Nordeste, usamos essa expressão para explicitar que estamos de mal) com a técnica, mas agora a retomei. Estou tentando aprender o avesso perfeito. Obrigada por compartilhar esse conhecimento. Bjs, bjs!

A Casca da Cigarra disse...

Cecília que post e quadro mais lindos. Faço votos que sua "amiga" tenha aproveitado bem o tempo dela com as coisas feias e duras,que as belas são para quem tem um leve coração. Beijos e tchau que vou ressuscitar umas revistas de ponto DE cruz!

andrea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andrea disse...

Fiquei curiosa para saber se o ponto de cruz ramificou para o bordado em talagarça ou vice versa, porque a técnica é parecida (preencher quadradinhos com fios). Muito bom o post , gostei muito de saber das origens. beijo

Ruby Fernandes disse...

Oie Cecília querida!
Adoro aprender sobre coisas que gosto!
Foi uma super aula!
Lindíssimo seu bordado.
Obrigada por compartilhar.
Bjo bjo =D

Terezinha disse...

Cecília,
Sempre leio seu blog, mas é a primeira vez que comento, e não poderia deixar de fazê-lo.
Qual não foi minha surpresa ao ver a foto do quadro que você bordou.
Eu tenho esta revista, linda por sinal, e este gráfico está na capa. É uma publicação espanhola, Muestras y Motivos punto de cruz nº13. Se não me engano comprei em 1991 ai, ai, ai...
Muito interessante seu post, não sabia sobre esta história da ilustração e fiquei ainda mais orgulhosa por ter em mãos uma revista tão bacana (tenho outras raridades também).
Ah, também sou professora universitária, de Língua Inglesa e bordadeira apaixonada por ponto de cruz :))
Bjo.

Eliane disse...

Ponto de cruz, coisa gostosa de fazer, aprendi sozinha a encher o tecido de cruzinhas e descobri que depois que vc aprende a fazer o avesso perfeito nunca mais consegue fazer de outro jeito. Cecilia a aula foi perfeita obrigado. Um beijo da Eliane.

Andréa disse...

Olá, Cecília.
Adoro suas elucubrações!
Quanto à sua "amiga", ela deve ter pensado: "Ô lá em casa!"
Esquenta não, que é despeito. :-)
Um beijo,
Andréa.

Sunset disse...

Olá Cecília,

Soube do seu blog pelo Super Ziper, que belo post o seu!
Bordo desde os 10 anos de idade (aprendi na escola, tenho quase 30), mas não pensei que o ponto de cruz também fosse tããão antigo assim, rs. Vamos em frente, mantendo a tradição.

E que trabalhão bonito o desse quadro, hein? Eu tenho 02 bordados grandes que já falaram pra emoldurar, mas eu acabo colocando-os "pra rodar" pela cozinha, rs.

Bjo!

Mayra Carvalho disse...

obrigada pelo post!