domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vendo o Bairro Peixoto com os olhos da Helena e com minhas elucubrações

Quando nos mudamos para o Bairro Peixoto, ele era chamado de  Bairro do Peixoto. Não me lembro quem nos contou que era "do Peixoto", porque ali havia uma fazenda, cujo dono se chamava "seu" Peixoto. Mais tarde, bem mais tarde, pesquisando na Internet, li que se tratava de um comerciante português, o Comendador Paulo Felisberto Peixoto da Fonseca. Aqui um mapa; assim, fica mais fácil para localizar esse bairro dentro do outro bairro, que é Copacabana. Na época, morávamos na Tijuca, num apartamento quentíssimo, um terror! Num domingo pela manhã, saímos à procura de um local mais fresco para morar, na Zona Sul, e, nem me lembro como, chegamos a um lugar que, de cara, nos conquistou. Sem saber, estávamos em Copacabana, no Bairro do Peixoto. O prédio estava em final de construção, mas já dava para morar. Pura sorte! A Helena nasceu aí; eu estava grávida de oito meses, o que significa que ela foi feita na Tijuca. Já o Augusto foi feito aí, mas nasceu em Brasília. Agora em fevereiro, a Helena passou uns dias no Rio e, como sempre, encantada com o bairro (ela o chama de "meu bairro"), fez algumas fotos. Com os olhos da Helena, vou desfiando minhas elucubrações.


Sempre brinco, dizendo que é um bairro intelectual. As ruas que vão ladear a pracinha ( Praça Edmundo Bittencourt - ele foi o fundador do jornal Correio da Manhã, um dos mais importantes do Brasil) são a Maestro Francisco Braga e a Décio Villares. O maestro (1868-1945) é o autor do Hino à Bandeira, com versos de Olavo Bilac. Décio Villares (1851-1931) foi um pintor, escultor e desenhista, muito famoso na sua época. Li na sua biografia, que foi quem executou o disco azul da bandeira do Brasil. O que isso significa? É só ler aqui, vale a pena. E mais lá em cima, saindo do Túnel Velho e desembocando na Santa Clara, está a Rua Henrique Oswald. Henrique Oswald ((1852-1931) foi pianista, compositor e diplomata. Foi diretor do Instituto Nacional de Música, de 1903 a 1906. Estudei aí, quando se chamava Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil; atualmente é a Escola de Música da UFRJ.
O prédio que fica nessa esquina tem a entrada de serviço na Décio Villares e a entrada principal na Maestro Francisco Braga.


Por suas características arquitetônicas (ele é tombado), o Bairro Peixoto é cenário de novelas e romances. A fachada do prédio da foto acima serviu de moradia de uma das Helenas do Manoel Carlos, a da Maitê Proença, na novela "Felicidade", de 1991/92 - me informei aqui. A Helena da vez, Julia Lemmertz, é filha da primeira Helena, a Lilian Lemmertz (primorosa, atriz maravilhosa), que nos deixou cedo demais.
A Nazaré da Renata Sorrah, de Senhora do Destino, morava numa casa da Décio Villares (a Nazaré, personagem, não a Renata Sorrah). A Bete Mendes mora na Décio Villares, além de muitos outros artistas. Nesta crônica do Artur Xexéo, que, aliás, mora lá, tem uma listinha - A Beverly Hills de Copacabana. O Pontinho,  que na realidade se chama "Stop Here", restaurante do Toninho, meu vizinho de prédio, também serviu de cenário para algumas tomadas da novela. O Pontinho é o único restaurante do bairro, que é estritamente residencial. Tem uma vendinha do lado, muito bem sortida, que é também do Toninho. Não posso deixar de citar o Edvaldo, meu garçom preferido. 


Na foto acima e na de baixo, podemos ver o endereço ficcional do delegado Espinosa, personagem principal dos romances policiais do Luiz Alfredo Garcia-Roza. Os leitores de Garcia-Roza sempre se perguntam qual é o prédio onde mora do delegado. Numa reportagem de 2008, do O Estado de São Paulo, ele esclarece: "Eu digo que ele mora em um apartamento que tem janela francesa, o que já é bastante limitador, e que é um prédio de três andares. Então, três andares, janela francesa e um balcãozinho…". E acrescenta: "Na verdade nenhum prédio daqui preenche todos esses requisitos. Mas este, o amarelinho, é muito parecido. É o de número 396 da Rua Maestro Francisco Braga, em frente à praça, amarelo claro de três andares e grandes janelas. A que está mais aberta, à esquerda de quem olha, seria a da sala de Espinosa (...)". A reportagem completa, aqui. Mais sobre o autor, aqui e aqui


O prédio fica bem de frente para a pracinha, na descida para a "muvuca" de Copacabana. Descendo mais, a gente encontra uma passagem que liga o Bairro Peixoto à Rua Santa Clara. É a passagem Moacyr Deriquém (1927- 2001), assim chamada em homenagem ao ator - morador e caminhante cotidiano do bairro. Descendo mais, a Décio e a Maestro se encontram, e começa a Anita Garibaldi, que vai dar bem em frente à Galeria Menescal, de decoração art-déco,  passagem para a Rua Barata Ribeiro. É tombada pelo Patrimônio Histórico.


O delegado Espinosa se senta neste banco da pracinha. É onde eu me sento também para descansar, quando desço a minha rua para chegar à Barata Ribeiro e à Nossa Senhora de Copacabana. Podem perguntar se é o único banco da praça. Claro que não. Mas é o que está em frente ao cercadinho onde ficam os bebês nos seus carrinhos com suas babás ou suas mamães, e onde brincam as crianças menores.  É onde eu gosto de me sentar para observar o movimento e descansar para continuar a caminhada. Tem outro cercadinho, onde os meninos maiores jogam bola. Os cachorros correm pela praça, acorrentados ou não. Tem um espaço com aparelhos de ginástica. Tem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, onde sempre há um grupo rezando. Tem a feira das quartas-feiras. Tem a feira de produtos orgânicos dos sábados. Tem o chafariz. Tem ... muita coisa. Tem os velhinhos passeando e tomando sol. Não é uma pracinha, é um "pração". Mas, para nós, moradores do bairro, é a pracinha do coração. E nem falei do bambuzal de antigamente, nossa ...
( por Cecilia. Obrigada, Helena, pelas recordações que você me despertou, lindona!)

3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei!
Berê

Unknown disse...

Adorei Lele! Parte da sua historia contada assim com alguns detalhes, delicia de leitura. Obgada por compartilhar. Beijos

simone arrais disse...

O Rio, que é uma delícia, fica ainda melhor cantado em prosa por suas elucubrações... Um beijo, querida! Ah, e parabéns à Helena pelos clicks!