Que título enorme! Mas, vejam só: reparem numa das jovens que colhe flores, a que está bem no centro da
iluminura. Ela não faz parte da cena principal, que é a da troca de alianças do jovem casal:

No entanto, ela chamou a atenção de algum anônimo artista, que a reproduziu numa revista muito antiga de modelos de ponto de cruz. Essa revista caiu nas minhas mãos, há tanto, tanto tempo, que nem me lembro do ano, nem tenho mais essa revista (devo ter doado, ou se perdeu em alguma das minhas mudanças - lembrei-me agora desta postagem:
Livros que perdemos pelo caminho).
Acontece que fiquei tão fascinada pelo desenho, que eu o bordei. Ainda não conhecia o Duque de Berry, nem seu livro de orações.Durante muitos anos me dediquei ao ponto de cruz, seja nos barradinhos, seja em quadrinhos e também em quadrões.
Acho que podemos colocar uns quinze anos nesse "tanto, tanto tempo", porque quando voltei ao Rio, depois da aposentadoria e dos quase trinta anos de Brasília, eu trouxe esse bordado, devidamente emoldurado, na minha bagagem. Olha ele aqui:
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| Foi feito por mim!!!! (46 cm x 63 cm) |
Detalhe da jovem, desta vez com as flores nas mãos:
Não me lembro de nenhuma referência ao livro do Duque. O que me admira é que a pessoa que desenhou o esquema para a tal revista respeitou o estilo da época (o livro é do séc. XV), e acrescentou elementos característicos do estilo
mille fleurs ou
millefleurs (só encontrei informações em francês e em inglês), em voga no
Renascimento (sécs. XIII- XVII).
O ponto de cruz (recuso-me a dizer ponto cruz; quem inventou isso?) é um dos pontos mais antigos de que se tem conhecimento. Alguns estudiosos dizem que ele nasceu quando os homens das cavernas precisavam costurar os pedaços de couro para suas vestimentas. Vou começar de tempos mais próximos. Os fragmentos mais antigos datam do ano de 850 da nossa era e foram encontrados na Ásia Central. Mas é na Idade Média que realmente começa a sua verdadeira história. Entre os sécs. X e XIII, as castelãs, enquanto esperavam seus maridos voltarem da guerra (tantas, tantas, cruzadas, etc.), copiavam os motivos das tapeçarias que eles traziam do Oriente. No Renascimento, o ponto de cruz se espalhou por toda a Europa e se tornou uma das bases da educação feminina. A Igreja encomendava bordados para seus ornamentos, toalhas, vestes para cerimônias religiosas,etc.etc. Foi no séc. XVI que começaram a circular os primeiros esquemas impressos (
Guttenberg inventou a imprensa em 1439), principalmente na Alemanha e na Itália. Em 1586, na França, publica-se
La clef des champs, de
Jacques Le Moyne, um livreto com motivos de flores e de animais estilizados inspirados no Oriente e em símbolos
heráldicos. No séc. XVII, chegam à Europa, vindos da América novos colorantes naturais, de baixo preço, que permitem tingir os fios de vermelho (olha o
redwork aí, gente!). As mulheres começam a aprender a ler e a escrever (embora até pelo menos o séc. XIX muita gente não soubesse ler nem escrever), e entra a moda das amostras (
samplers) ou marcadores, nos quais as mulheres bordam vários tipos de alfabeto. Já escrevi num comentário que tenho um quadro desses, bordado pela minha mãe, datado de 1915 (ela estava com 9 anos). Já tentei fazer uma foto, mas sem resultado, por causa do reflexo do vidro. Borda-se em ponto de cruz até o séc. XIX, quando ele desaparece praticamente dos salões, porque as senhoras passam a preferir o bordado livre, e o ponto de cruz é ensinado somente nas escolas, até quase desaparecer também. Foi nos anos 80 que ele retornou ao universo do bordado feminino, com força total. Retirei essas informações de um blog francês (
Point-de-croix et broderie), que, por sua vez, se inspirou na
Extrait de L'Encyclopédie du point de croix, Prima Donna Éditions.Uma pequena reflexão: há bordadeiras que têm uma certa aversão ao ponto de cruz, talvez porque pensem que ele só serve para as barrinhas de toalhas de mesa, ou de banho, ou de panos de prato. No entanto, podem-se fazer maravilhas com o ponto de cruz. E olha que não é um ponto tão fácil de fazer, não (precisa-se tomar muito cuidado com o avesso - um avesso mal feito acaba com o trabalho). Vejam quanta história nos conta o artesanato. Fiquei muito triste quando uma antiga colega de Faculdade me disse: "Acho isso uma perda de tempo", a cara-de-pau, olhando um dos meus trabalhos. Só eu!!!!
(por Cecilia)